Tecendo relatos da primeira feira de ideias para adiar o fim de Floripa

No último dia 23 de março, no aniversário de Florianópolis, poucos dias após o equinócio de outono, acontecia a Feira de Ideias para Adiar o Fim de Floripa, nome escolhido em referência e reverência ao livro “Ideias pra adiar o fim do mundo” de Ailton Krenak. A feira juntou diversas coletividades em torno das causas socioambientais e foi realizada na praça da Lagoa da Conceição, escolhida pela importância socioambiental da lagoa, atingida no ano passado pelo maior crime ambiental da história da cidade.

“Foi um evento incrível. Reunimos coletivos e organizações ambientalistas com relevante incidência política no município.”

Estande do Quilombo Vidal Martins, e do Pomar dos ciclistas ao fundo. Créditos desta foto: @leticiadb.
Estande do Eco-Memorial VERA (Valorização Ecológica e Restauração Ambiental), homenagem a moradora atingida pelo rompimento da barragem da CASAN.
Créditos desta foto: @leticiadb

Tendo como mote a emergência climática, com o chamado “Mudar o sistema, não o clima”, os problemas globais foram trazidos para o contexto local. Na praça, os movimentos sociais expuseram as ações e lutas das comunidades no enfrentamento de questões críticas para a cidade.

Frente do panfleto sobre o evento
Verso do panfleto

“Necessária. Com os ataques que recebemos de todos os lados, nada mais importante que encontrarmos nossos aliados e fortalecer os laços, conhecer e se envolver nas lutas.”

Mural de ideias para adiar o fim de Floripa. Créditos desta foto: @leticiadb


Ao longo do dia os grupos realizaram atividades expositivas, artísticas e culturais. A programação começou com uma ação de limpeza e coleta de resíduos na lagoa, promovida pelo Parley. Na sequência, a banda Na Esquina fez um som aconchegante, chamando as pessoas do entorno a se aproximar e botando ânimo para quem estava montando as barracas.

Banda na Esquina

“A feira me fez lembrar que, apesar da dificuldade em enfrentar o egoísmo das elites, nossa luta é pelo encontro, pra podermos estar juntes sem medo e com dignidade”

Nas barracas, a diversidade de ideias e ações. Estiveram presentes organizações políticas (Coletivo Subverta, Mandato Agroecológico, Frente Parlamentar Ambientalista e Ecotrabalhismo) , movimentos sociais, coletivos e ONGs de diferentes cantos da ilha. Também contou com atividades de grupos locais, com a presença dos atingidos e atingidas pelo rompimento da barragem da CASAN, e a escola básica municipal da Costa da Lagoa, que trouxe estudantes e professores para uma atividade de conscientização ambiental em plena praça.

“Acredito que a diversidade de movimentos que se fez presente é um dos principais fatores para o sucesso do evento. A diversidade de atividades, sendo elas culturais, pedagógicas, lúcidas, formativas foram de muita qualidade.”

“Foi lindo ver pessoas interessadas em construir uma Florianópolis melhor e querer fazer parte disso”

A discussão sobre a emergência climática esteve presente na feira através do Túnel do Clima, um ambiente interativo montado pelo Ecoando Sustentabilidade para sensibilizar crianças e adultos sobre como nosso clima é afetado pelos chamados estressores locais, como poluição, agrotóxicos e queima de combustíveis fósseis.

O Coletivo UC da Ilha também levou um panfleto sobre a importância das unidades de conservação para nos ajudar a manter um clima mais saudável, fazendo uma atividade online na semana seguinte para debater sobre o tema.


A luta por parques, praças e áreas verdes de lazer frente à especulação imobiliária foi representada por diferentes coletivos. O Movimento Ponta do Coral 100% Pública trouxe faixas de luta pelo Parque Cultural das 3 Pontas, projeto que visa unir Ponta do Coral, Ponta do Lessa e Ponta do Goulart e um parque público e cultural. O Quadrado/Pomar do Ciclistas, localizado no aterro da expressa sul, levou bombas de sementes, adesivos e contou sobre a experiência de 5 anos mantendo a ocupação de um espaço comunitário e dos sonhos da criação de um parque na região. O ISAS, Instituto Socioambiental da Praia do Santinho, em um estande junto com a ONG Sea Sheperd, contou a história das lutas das comunidades do norte da ilha para conquistar o Parque Municipal Lagoa do Jacaré.

No fim de tarde, aconteceu uma roda de conversa promovida pelo Fórum da Cidade sobre a luta por um plano diretor participativo, que juntou diferentes gerações de ativistas em um assunto central para o presente e o futuro de nossos territórios, em uma cidade colocada à venda pela sua própria prefeitura municipal.

“Me parece que a feira é uma atividade prática que oferece a experiência de pertencimento e de construção coletiva. Sabemos que, pra conseguir adiar o fim de Floripa, precisamos ir além da criação dessa rede, além da feira, precisamos fortalecer e criar formas de participar das decisões que influenciam nossa vida, e democratizar esses processos.”

O clima também foi diverso ao longo do dia, com praticamente todas as estações ocorrendo em um intervalo de poucas horas. Isto certamente não ajudou a atrair mais pessoas para as atividades, especialmente para além do público que já participa dos movimentos na cidade. A instabilidade também prejudicou algumas atividades previstas, como a pintura de uma faixa pelo coletivo Pinte Lute Floripa.

“Foi importante reunir pessoas e causas afins, expor publicamente demandas e iniciativas. No entanto, o clima não ajudou muito e ficamos falando pra nós mesmos.”

Após a roda de conversa, tivemos uma sessão de cinema na praça, com projeção do curta “A Voz do Rio Vermelho”, uma websérie ambiental produzida pela Coalizão Rio Vermelho, e apresentada pela Aprender Ecologia

Cinema na praça: Apresentação da websérie “A Voz do Rio Vermelho”. Créditos da foto: @leticiadb

Tenho a sensação de que o exercício de criar algo como esse evento, juntes, é um caminho que podemos percorrer pra desenvolver nossas capacidades de estruturar construções coletivas cada vez mais efetivas e contundentes.

A Fanfarra do Fim do Mundo (ou para adiá-lo!), trouxe um clima de carnaval no cair da noite, com direito à ciranda e tudo (“se não é para cirandar, essa não é nossa revolução”, já diria Emma Goldman no século XXI). E, para fechar a feira, o coletive Saia do Mar colocou todo mundo para dançar coco, numa roda que pulsava em energia.

A Fanfarra do Fim do Mundo. Créditos: @leticiadb


“Foi muito bom estar perto das pessoas de novo, conhecer, dançar e celebrar as lutas da cidade!”

“Penso que é fundamental misturar… se quisermos agregar pessoas e ganhar voz ecoar, precisamos de uma feira mais plural, mais pop, mais alegre. Inclusive o material de divulgação. Barracas de comida e bebida, arte, música circo, etc!”

Após a realização da feira, o Tecendo Redes – essa articulação de coletivos que fomentou a sua construção – solicitou para que pessoas, parte da organização ou não, enviassem seus relatos e avaliações, com críticas e sugestões. São os recortes destes textos que nos inspiraram a tecer o presente relato.

“A regularidade será importante. Isso irá trazer mais união entre as organizações que visam o crescimento orgânico da cidade integrada a natureza com a saúde dos cidadãos”.

Estes ricos relatos também tem fermentado múltiplas ideias nas nossas cabeças, as quais pretendemos por em prática na sua devida maturação coletiva. Entendemos que estes encontros tem a potência de nos ajudar a romper com o desalento dos nossos dias, tornando possível sonhar novamente através do fortalecimento de nossos laços e do afeto ao coletivo.

“Gostaria que realizássemos uma por mudança de estação e em locais diferentes da ilha a cada vez. Estamos acostumadas a nos orientar pelo calendário convencional e acredito que faz parte da formação de novas subjetividades a percepção dos movimentos que independem de nós, mas dos quais somos dependentes.”

Com os próximos encontros, pretendemos nos espraiar em diferentes cantos, furando bolhas e semeando ideias para adiar o fim do mundo, para que elas possam germinar, florescer e frutificar em outros solos e estações. Também queremos com isso, potencializar novos encontros, neste ou em outros cantos do mundo, pois como diz o manifesto do Tecendo Redes:

Embora este novelo tenha começado a se desenrolar a partir de Florianópolis, acreditamos no potencial de que se espalhe para outros cantos, pois nossos sonhos, e também nossos pesadelos, não reconhecem divisões geográficas.”

https://tecendoredes.libertar.org/manifesto/

Meiembipe, outono do ano de 2022.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.